Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Domingo, Julho 30, 2006
POEMA DE NOVO AMOR - PÔR-DO-SOL
naquele fim de tarde, pôr do sol e sombra
teus olhos parte de mim complemento
num debruçar-se sobre o corpo
aconchegando os sentidos.
é como um estado de graça
carne, corpo, lábios beijos reais
algo perdido e ansiado, extasiadamente
a realização do que só no toque transcende almas.
um vai-vem-vai-vem vou mergulhando nas ondas
de um porto de areias firmes, úmidas sob o pé
que risca o chão e o mundo com pegadas
na sinestesia dos dedos, da pele-sonho.
barco a deriva no instante agora
em que sou pedaço inteiro
sem ilusões pirâmides
apenas EU e TU.
(L. F. Calaça | 30/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 6:18 PM Comments:
Sábado, Julho 29, 2006
SEMINÁRIOS DE PSICOLOGIA CULTURAL
O Departamento de Psicologia e o Mestrado em Psicologia, FFCH, UFBa promovem os Seminários de Psicologia Cultural do Desenvolvimento (apoio FAPESB/UFBa), no período de 1 a 17 de agosto.
O Professor Jaan Valsiner, da Clark University (EUA) e um dos principais teóricos da Psicologia na contemporaneidade (ver entrevista em anexo), é o principal conferencista. Estará presente também o Professor Aaro Toomela (Universidade de Tartu, Estônia), que, além de elaborar uma teoria unificadora da Psicologia, vem desenvolvendo importante pesquisa na área da linguagem, a partir de Vygotsky, No mesmo período, ambos os visitantes conduzem oficinas de trabalho com professores e alunos do curso de Psicologia, voltadas para projetos conjuntos de pesquisa que estão em andamento.
Nos dias 01, 03 e 04 de agosto, das 10:00 às 12:00 h, o Prof. Aaro Toomela realiza Ciclo de Palestras, abertas a todos os interessados, sobre "A questão da cultura em Vygotsky" (Local: FFCH, São Lázaro: Sala 8).
Nos dias 08, 09, 11, 15 e 17 de agosto, no horário das 14 às 17h, o Professor Jaan Valsiner realiza Seminário sobre Desenvolvimento e Diversidade: Questões de Teoria e Método, que aborda tópicos avançados na área, tratando das relações entre cultura, semiótica e desenvolvimento e destinando-se a docentes, alunos de pós-graduação e a alunos de graduação que tenham experiência de iniciação científica. Participam, como debatedores, os professores Aaro Toomela (Universidade de Tartu, Estônia), Ângela Branco (UnB), Maria Lyra (UFPe), Elaine Rabinovich (USP/UCSAL), Naomar de Almeida Filho e Antonio Marcos Chaves (UFBa).
Assumindo que a ciência desenvolvimental (nos níveis biológico, psicológico ou sociológico) implica focalizar processos de vir-a-ser, em contraste com a documentação de fenômenos já estabelecidos, o Prof. Valsiner examina criticamente as fronteiras teórico-metodológicas dentro das quais a psicologia contemporânea se move. Ao fazê-lo, desenha novas possibilidades que desafiem os limites das técnicas comumente utilizadas. Ao focalizar mudança em contexto, sua dinâmica, variabilidade e natureza semiótica, o curso integra perspectivas da antropologia e da psicologia do desenvolvimento.
No dia 14/08, das 16:00 às 18:00h, o Prof. Valsiner profere a conferência: "A Psicologia como uma Fábrica: Tradições em Mudança e Novos Desafios Epistemológicos". (Local: a ser informado).
As inscrições podem ser feitas por email, no endereço
seminariospsicologiacultural@gmail.com (ver ficha de inscrição em anexo). Os interessados podem inscrever-se para o Ciclo de Palestras do Prof. Toomela até terça-feira, dia 01/08 (50 vagas), para o Seminário do Prof. Valsiner até segunda-feira, dia 07/08 (50 vagas), ou para ambos. Para a conferência, aberta a todos os interessados, não é necessário inscrever-se.
Maiores informações, contatar a Profa. Ana Cecília de Sousa Bastos, que coordena o evento, no endereço
acecil@ufba.br.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:32 PM Comments:
Terça-feira, Julho 25, 2006
Matador, Pedro Almodovar (1985-6)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:12 AM Comments:
Segunda-feira, Julho 24, 2006
The silent statue, Giorgio di Chirico
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:48 AM Comments:
GENTE, PRETENDO SAIR POR TEMPO INDETERMINADO DO ORKUT-MSN, POR MOTIVOS PESSOAIS.
QUEM QUIZER SE COMUNICAR COMIGO, PEÇO QUE LIGUEM PARA MIM OU MANDEM E-MAIL.
ESTOU PRECISANDO DAR UM POUCO DE ORDEM E SENTIDO A MINHA VIDA.
CONTATOS:
Tel: 3233-7281 / 8896-9946
Email: lfcalaca@bol.com.br / lfcalaca@gmail.com.
O RUÍNAS ALADAS DEVE DAR FÉRIAS TAMBÉM POR UM TEMPO.
DESCULPE A TODOS,
LUIZ FERNANDO CALAÇA
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:09 AM Comments:
Domingo, Julho 23, 2006
Tom Jobin
TRISTE
Intérprete: Ivan Lins
Composição: Antonio Carlos Jobim
Triste é viver na solidão
Na dor cruel de uma paixão
Triste é saber que ninguém pode viver de ilusão
Que nunca vai ser, que nunca vai dar
O sonhador tem que acordar
Tua beleza é um avião
Demais pra um pobre coração
Que pára pra te ver passar
Só pra me maltratar
Triste é viver na solidão
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:18 AM Comments:
Sábado, Julho 22, 2006
Prêmio Braskem Cultura e Arte - LITERATURA
Inscrições: 03/07/06 a 03/08/06
(exclusivamente para produções inéditas)
Objetivo
O Prêmio Braskem Cultura e Arte tem como objetivo o incentivo à cultura, através do
patrocínio a produções culturais inéditas, destinadas ao público da Bahia.
Para o ano de 2006 serão selecionados projetos que tenham por objetivo:
- Produção de CDs de Música - 2 premiados.
- Montagem de Exposições de Artes Plásticas - 2 premiados.
- Publicação de Obras Literárias de autores inéditos - 3 premiados
(Ver regulamento específico da categoria Literatura).
- Produção de filme de curta metragem, gênero ficção - 35mm - 1 premiado
(ver regulamento específico da categoria Cinema).
Desde que se enquadrem nas categorias previstas acima, os autores dos projetos,
sejam eles os próprios artistas ou produtoras que os representem, têm ampla
liberdade de expressão, não havendo por parte da Braskem S.A., patrocinadora do
Prêmio, nenhuma restrição quanto à temática, técnica, estilo ou concepção artística
do trabalho inscrito.
LITERATURA
1. Objetivo
O Prêmio Braskem Cultura e Arte foi criado pela Braskem S.A. com o objetivo de
promover e incentivar a produção literária baiana, para autores inéditos, nos gêneros
ficção e poesia. A coordenação de inscrição, avaliação e escolha dos trabalhos serão
da Fundação Casa Jorge Amado.
2. Concorrentes
Poderão concorrer ao Prêmio Braskem Cultura e Arte - Literatura, autores inéditos,
nascidos ou radicados na Bahia, comprovadamente, há mais de dois anos.
2.1. Entende-se como inédito, o autor que ainda não tenha nenhum livro publicado,
podendo, entretanto, ter veiculado trabalhos em jornal, revista ou antologias.
3. Inscrições
As inscrições para o Prêmio Braskem Cultura e Arte - Literatura, serão feitas mediante
o atendimento das seguintes condições:
- Apresentação de 03 cópias impressas dos originais do livro, encadernado, letra
Times New Roman, fonte 12, mínimo 50 laudas, acompanhadas por um
disquete do mesmo, em Word;
- Nas cópias do livro e no disquete não deverão constar nenhuma alusão ao
nome do autor, pois as mesmas serão identificadas por determinado número,
no ato da inscrição;
- Breve currículo do autor;
- Preenchimento da ficha de inscrição.
3.1. O concorrente devidamente inscrito compromete-se a acatar este regulamento e
as decisões da Comissão Julgadora e das instituições promotoras do Prêmio Braskem
Cultura e Arte - Literatura.
4. Prazos de inscrição
As inscrições poderão ser feitas de 03 de julho a 03 de agosto de 2006. O resultado
será divulgado até o dia 20 de setembro de 2006.
4.1. As inscrições deverão ser encaminhadas em envelope lacrado, com a
identificação Prêmio Braskem Cultura e Arte Literatura, e destinado à Fundação Casa
de Jorge Amado - Largo do Pelourinho, s/nº, Pelourinho - Salvador/BA. - tel.: 3321-
0122.
5. Avaliação dos trabalhos
A avaliação dos trabalhos inscritos será realizada por uma Comissão Julgadora
indicada pela Braskem e Fundação Casa de Jorge Amado. A comissão será composta
por três membros escolhidos entre escritores, professores e críticos literários de
notório reconhecimento na comunidade baiana.
6. O prêmio
Serão selecionados 03 (três) autores inéditos dos gêneros ficção ou poesia,
indistintamente, que terão como prêmio a publicação, em 2006, do livro inscrito,
patrocinado pela Braskem S. A. e editado pela Série Inéditos da Coleção Casa de
Palavras, Fundação Casa de Jorge Amado.
6.1. Cada publicação terá uma tiragem de 1.000 exemplares, recebendo cada autor, a
título de direito autoral, o equivalente a 30 por cento da edição, em livros.
6.2. A Braskem poderá, a seu único e exclusivo critério, destinar recursos técnicos e
financeiros para ações promocionais relativas ao projeto.
7. Disposições finais
7.1. À Braskem S.A. será assegurado o direito, sem qualquer ônus, de citar qualquer
patrocinado em material publicitário da empresa. Os custos de produção dessa
divulgação correrão por conta da Braskem.
7.2. Os originais de trabalhos, premiados ou não, não serão devolvidos.
7.3. Os casos omissos serão resolvidos pela Braskem S.A. e Fundação Casa de Jorge
Amado.
7.4. Integrantes do quadro da Braskem não poderão concorrer ao Prêmio Braskem
Cultura e Arte - Literatura.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:41 PM Comments:
Quinta-feira, Julho 20, 2006
Samuel Beckett
POEMAS DE SAMUEL BECKETT (em espanhol):
http://amediavoz.com/beckett.htm
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:43 PM Comments:
Chavela Vargas
OJOS TRISTES
Letra: Guty Cárdenas & Alfredo Aguilar
Intérprete: Chavela Vargas
Tienen tus ojos un raro encanto
tus ojos tristes como de niño,
que no han sentido ningún cariño
tus ojos dulces como de santo
Ay, si no fuera pedirte tanto
yo te pidiera vivir de hinojos
mirando siempre tus tristes ojos
ojos que tienen, ojos que tienen,
sabor de llanto.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:00 PM Comments:
A PRIVADA ou EM TEMPOS DE ÓCIO
Solidão
Solidão
Solidão
Solidão
Solidão
Solidão
Solidão
Solidão
Nada de sólido
Nada demasiadamente sólido
Nada dado, nada me dão
Nada além do insólido
Nada além do nada
Este nada......
nadificante.......................................OPS! Meus óculos!!!
(L. F. Calaça | 20/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:07 PM Comments:
Segunda-feira, Julho 17, 2006
PULSAÇÃO
sou como pedra mole espatifando vidraças
pequenos pedaços brilhantes e transparentes
cortando a carne morta dor sangue pulsando
na dança louca e maldita dos escorpiões tarântula
e as vertígens do cinema novo, dos ruídos radiofônicos
microfonia dormente latejando tímpanos e devorando homens
como num trânsito-caos, como no mar veleiro naufrágio
com meu corpo caído num gozo mudo tranverso, inverso
sou como a noite petrificada na janela cor de susto
como um bicho preso em grades de carne e ossos
mas sou assim, corpo gritando músculos fundidos
a uma alma vagamunda, mundo adentro, molusco.
(L. F. Calaça | 17/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:48 PM Comments:
Sábado, Julho 15, 2006
Diáro de Frida Kahlo. (p. 90)
Lágrimas, para que as quero,
se tenho olhos para sorrir?
(L. F. Calaça | 15/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:50 PM Comments:
O JEJUADOR
Às vezes, quero me jogar do fim do mundo
no início impreciso de minhas sensações
querendo ser eterno e passageiro, lápso
me perdendo nos dias calmos, devorando-me
sou parte perdida, metade sem retorno
espelho deformado e sem contorno
minha vida é música inaudível, corpo imóvel
dormente nas estrelas perdidas
de um céu sem rumo.
(L. F. Calaça | 15/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:48 AM Comments:
Lila Downs
ALCOBA AZUL
Interprete:
Lila Down
La noche ira sin prisa de nostalgia
Habra de ser un tango nuestra herida
Un acordeon sangriento nustras almas
Seremos esta noche todo el dia
Vuelve a mi
Amame sin luz En nuestra alcoba azul
Donde no hubo sol para nosotros
Ciegame
Mata mi corazon
En nuestra alcoba azul
Mi amor
Cena do filme FRIDA, ao som de
Alcoba Azul.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:29 AM Comments:
Sexta-feira, Julho 14, 2006
SONATA PAULISTANA*
a Marcos Oliveira מָרְקוֹס וֹליויָירוְ
Neste silêncio sirene estilhaçada
Portas atando escadas duplas
Lado alado de um fio impreciso
Conexão interrompida, feixe espaço
São como filmes, películas hispânicas
De desejos em flor secreta, tango e bolero
Um cão latindo na rua deserta, caos urbano
E o instante vazio, entre sons, cortinas, sem toque
Meu poema, uma criança deitada na janela Lua
Segredo disperso, sono e palavras-lágrimas
A Lua é llena, canção cortada, paloma negra
Amores sangrando o delírio dança arena
Apenas um instante, lua, estrela, vermelho
A foto de um arranha-céu em chamas
Fé sem Sé, sem paraíso, veneno ópio
Numa agulha que derrama noites brumas.
(L. F. Calaça | 14/07/2006)
* Poema ao som de Lila Downs
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:12 PM Comments:
REPRESENTAÇÃO SOCIAL DE MÃE E MATERNIDADE
EM CINCO FILMES DE ALMODOVÁR
Andréa Batista Matta
Luiz Fernando Calaça
Mariana Barbosa Siqueira
Milena Marinho
Rogério de Andrade
RESUMO: Este trabalho consiste no resultado de uma pesquisa realizada como atividade prática da disciplina Psicologia Social II, do currículo de Graduação do Curso de Psicologia, na Universidade Federal da Bahia. Inicialmente buscamos compreender a dimensão histórica da maternidade, como fundamentação para as discussões acerca do que seria uma possível representação social de mãe e maternidade, no contexto dos filmes do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Sob a perspectiva da teoria do núcleo central, buscamos trabalhar, através de uma metodologia qualitativa de análise de conteúdo, os elementos centrais e periféricos evidentes nas falas e caracterizações de 13 personagens de mães, selecionadas em 5 filmes: A lei do desejo, De salto alto, A flor do meu segredo, Carne trêmula e Tudo sobre minha mãe. Concluímos, por fim, que a representação de mãe tem como núcleo central a questão do cuidado, do controle e do papel de referencial que a mãe desempenha na vida do filho, podendo suas manifestações variar de acordo com os múltiplos papéis que a mulher executa na sociedade, bem como com sua perspectiva acerca do que seria maternidade, traços que constituiriam o sistema periférico das representações.
Palavras-chave: Representações sociais, Maternidade, Almodóvar
DEFININDO UM OBJETO: Cinco filmes e 13 mães
Esta pesquisa envolveu, inicialmente, a apreciação de 9 filmes de Almodóvar: Maus Hábitos (1983), A Lei do Desejo (1987), Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (1988), Ata-me! (1990), De Salto Alto (1991), Kika (1994), A Flor do meu segredo (1995), Carne Trêmula (1998) e Tudo sobre minha mãe (1999). Em todos os filmes presenciamos, direta ou indiretamente, a aparição da figura da mãe, sendo que trabalhamos com apenas 5 deles, de fases distintas da produção cinematográfica do autor, e onde evidenciamos maior riqueza de elementos para análise. Foram eles:
A Lei do Desejo (1987):
Antônio é um jovem obcecado pelo diretor de cinema Pablo. Eles acabam se envolvendo numa paixão que se desdobra numa trama de assassinatos e desencontros. Em segundo plano tem-se a história de Tina, irmã de Pablo, uma transexual viciada em cocaína que, abandonada pela antiga namorada que foge com um fotografo pra Tókio, continua cuidando de sua filha, Ada.
Ao longo da trama temos 3 mães:
· Tina: transexual que realiza o papel de mãe de Ada;
· A mãe verdadeira de Ada;
· A mãe de Antônio, alemã, esposa de político.
De Salto Alto (1991):
Becky é uma cantora que abandona o palco após se casar com um homem conservador. Seu casamento entra em conflito quando ela recebe um convite para atuar em um filme no México. O marido não admite de forma alguma que ela retome a vida de artista e nega-se em dar-lhe o divórcio.
Porém, ela se torna viúva e assim pode partir, deixando sua filha Rebeca aos cuidados do ex-marido, prometendo que em breve iriam viver juntas.
No entanto, Becky só retorna quinze anos depois, encontrando a filha já adulta e casada com um ex-amante seu, Manuel. Becky também conhece um travesti que a imita numa fase pop e que é amigo de Rebeca, que afirma ir vê-lo toda vez que sente a falta da mãe.
Fica evidente o misto de adoração e competição que Rebeca dedica a sua mãe. Becky é colocada como uma mulher egocêntrica e mãe ausente, cuja figura dominante continua determinando os passos da filha mesmo à distância. Rebeca se sente apenas uma sombra desta mulher poderosa e famosa.
Becky volta a se envolver com seu ex-amante, agora seu genro, que afirma que seu casamento com Rebeca é um fracasso. Logo este aparece assassinado estando as suspeitas recaídas sobre mãe e filha.
Ao longo da trama nos deparamos com 2 mães:
· Becky: mãe de Rebeca, cantora e atriz;
· Mãe do juiz: hipocondríaca que vive a 10 anos em cima da cama.
A Flor do meu segredo (1995):
Leo Macias é uma romancista que escreve histórias de 2ª categoria e que consegue certo sucesso, mas se esconde por trás de um pseudônimo: Amanda Gris. Apesar do sucesso profissional, sente-se infeliz, pois Paco seu marido, que é um militar que está sempre no exterior e se envolve num relacionamento com sua melhor amiga. Leo se vê entrando em desespero, o que a leva para a bebida e a parar de escrever seus contos.
Ao longo da trama nos deparamos com 3 mães:
· A mãe de Léo: uma viúva cega e aldeã;
· Ângela: editora de Léo que tem um filho viciado em drogas;
· A empregada de Léo, que dança flamengo.
Carne Trêmula (1998):
O filme começa quando Victor, um entregador de pizzas e filho de uma prostituta, discute com Elena, uma viciada em cocaína que o conheceu há alguns dias, mas que não quer mais saber dele. A briga acaba num tumulto que atrai dois policiais, David e Sancho. Na tentativa de desarmar Victor, Sancho dispara a arma que acaba por atingir David, que fica paraplégico.
Quatro anos mais tarde, David encontra-se em uma cadeira de rodas, é um astro de basquete e está casado com Elena. Victor, que estava preso, é colocado em liberdade e seus destinos voltam a se cruzar.
Ao longo da trama nos deparamos com 1 mãe:
· Mãe de Victor: prostituta que morre de câncer
Tudo sobre minha mãe (1999)
Esteban completa 17 anos. Para comemorar, Manuela, sua mãe o leva ao teatro para assistir à peça ¿Um bonde chamado desejo¿. Enquanto esperam um autógrafo da atriz que interpreta Blanche Dubois, Huma Rojo, Manuela confessa emocionada a Esteban que interpretou esse mesmo papel há 20 anos, junto com o pai dele, de quem Esteban não sabe nada. Como presente de aniversário, Manuela promete contar a ele tudo sobre seu pai, mas ele morre ao ser atropelado. Desde esse dia, Manuela guarda um caderno de seu filho com anotações para uma história intitulada ¿Tudo sobre minha mãe¿, e promete a si mesma sair em busca de ¿Lola¿, que antes também se chamava Esteban e agora é travesti, contaminado pela AIDS.
Na viagem de retorno ao passado, Manuela conhece Rosa, uma freira que engravida de ¿Lola¿ e sua mãe, que cuida do marido com Alzheimer.
Ao longo da trama nos deparamos com 4 mães:
· Manuela: mãe de Esteban e enfermeira;
· Rosa: 26 anos, freira que cuida de prostitutas;
· Rose: mãe de Rosa e falsificadora de quadros de Chagal;
· Mãe: personagem da peça ¿Bodas de Sangue¿, interpretada por Huma Rojo
Destes filmes, após assisti-los, selecionamos fragmentos que retratavam cenas envolvendo as mães, transcrevendo-os e submetendo a análise qualitativa de conteúdo.
Tendo como foco a representação social de mãe, sob a luz da Teoria do Núcleo Central, buscamos definir através da análise das falas e cenas, possíveis fragmentos que configurassem elementos de núcleo central (mais estável e comum à maioria das personagens maternas) e os periféricos, responsáveis pela variabilidade de tipos maternos e diferentes formas de conceber a maternidade.
Apenas a título de curiosidade, é interessante notar a presença da própria mãe de Almodóvar em 3 de seus filmes: Kika, Mulheres à beira de um ataque de nervos e Ata-me!, desempenhando os papéis, respectivamente, de apresentadora de programa de entrevistas, apresentadora de telejornal e mãe.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:20 AM Comments:
ANÁLISE DE DADOS: Multiplicidade e ambigüidade
1. A LEI DO DESEJO: A transexual, a ¿obcecada por homens¿ e a superprotetora.
Tendo em vista a diversidade de figuras maternas presentes nos filmes de Almodóvar, buscamos analisar, inicialmente, cada uma das figuras maternas, em cada filme, separadamente, para em seguida buscar estabelecer aspectos em comum que possam constituir um possível núcleo central da representação social de mãe.
Primeiramente, tomamos como foco as três figuras maternas contidas no filme A Lei do Desejo, de 1984.
Tina, atriz, transexual e viciada em cocaína, ocupa o lugar da mãe biológica de Ada e desempenha um papel de referencial para a menina, seja sendo exaltada como modelo ¿ de atriz, mulher ¿ a ser seguido, seja na influência da religiosidade estabelecida na sua formação moral.
A posição de referencial para Ada é ilustrada nas seguintes falas dela:
- ¿Ela se tornou uma grande atriz e eu também¿, que expressa a admiração e o processo de referenciação que se estabelece entre a menina e Tina;
- ¿Eu e Tina somos crentes, e muito. Temos uma Cruz de Maio¿, quando percebemos a influência da religiosidade de Tina sobre a educação de Ada;
- ¿Vou ter peitos iguais aos seus?¿, quando a menina se espelha em Tina, como projeção de si mesma e de seu próprio corpo, no futuro.
Outro aspecto que é ressaltado é a preocupação de Tina, no papel de mãe, de zelar pela educação, como na fala em que ela comenta com Pablo sobre seus planos para Ada, salientando que ela ¿tem de terminar a escola¿ e ¿tem de estudar¿. Outra característica que se manifesta também é a de mantenedora, estando ela preocupada também com a alimentação da menina, como na fala em que ela diz ¿Vamos, tome seu leite¿.
A associação da figura materna também se dá, em Tina, na condição que ela exerce de suporte afetivo para a criança, buscando protege-la, mantendo-a consigo ¿ ¿Depois vai continuar comigo¿ (fala de Tina para Pablo) ¿ e garantindo-lhe segurança, prometendo que nunca a abandonaria.
Neste ponto a imagem de mãe desempenhada por Tina se contrapõe com a ocupada pela mãe biológica de Ada, que é tida como uma mulher ¿obcecada por homens¿ e que a abandonou para morar com um fotografo em Tóquio. Neste aspecto, o papel de mãe se contrapõe ao de mulher, quando, diante do dilema entre permanecer com a filha, ela opta por seguir o homem que ama. Nesse aspecto, a segurança que a mãe representaria para a criança é desfeita ou associada à figura de Tina, que ocupa essa lacuna de protetora e estabelecendo uma preferência da menina por esta, como se retrata na fala em que Ada diz: ¿Prefiro ficar com Tina, ela não me abandonará¿.
Esse abandono da mãe de Ada, que a troca por um homem, não desvincula dela aspectos de maternidade, como o aspecto da afetividade ¿ de quando ela volta para buscá-la e expressa sua saudade: ¿Minha querida Ada, senti saudade¿ ¿ ou da preocupação com seu bem-estar, como quando, reparando no detalhe das unhas, comenta sobre a higiene da menina: ¿Está com as unhas sujas¿ .
Em ambas as figuras maternas observa-se um papel de controle, às vezes de forma autoritária, como quando Tina impede que Ada leia a carta da mãe ¿ ¿Ela recebeu uma carta de minha mãe. Não me deixou ler¿ (fala de Ada), ou quando a mãe de Ada a proíbe de fazer primeira comunhão, por ser atéia ¿ ¿Não quero que faça isto. Somos atéias. Não se lembra?¿. Essas falas ilustram a posição de controle que as mães exercem na vida dos filhos, determinando-lhe aspectos de suas vidas e restringindo, algumas vezes, sua autonomia em função de seu arbítrio, o que pode ser também exemplificado pela fala da mãe de Ada que, ao encontra-la, simplesmente comunica suas intenções de reavê-la, com um curto ¿Vim buscá-la¿.
Quanto à terceira figura materna deste filme, a mãe de Antônio, o mesmo aspecto de proteção e controle se saliente e se faz presente nas precauções que o filho ¿ homossexual ¿ tem em relação a ela, como quanto pede para Pablo escrever-lhe cartas com um pseudônimo feminino, pois ¿Assim minha mãe não irá suspeitar¿. Este controle se mostra presente também em ações, como quando ela olha para o relógio, marcando o horário em que ele saiu na noite em que mata o namorado de Pablo, quando entra no quarto dele e olha de forma recriminadora para a bagunça sobre a cama e remexe nos bolsos dele, encontrando a carta. Traços como bisbilhotar ¿ ¿Minha mãe é alemã. Gosta de bisbilhotar¿ ¿ ou os interrogatórios para saber onde ele estava, e buscando livra-lo das mulheres indesejáveis ¿ ¿Por que ela não o deixa em paz?¿ ¿ e tentando saber sobre os hábitos do filho, ao questionar sobre um possível envolvimento com drogas, por exemplo ¿ ¿O que está fazendo? Está cheirando a queimado. (...) É maconha? Abra a porta!¿, exemplificam as dimensões que Almodóvar traz para o grau e as formas de proteção incorporado pelas mães superprotetoras.
Não é possível, no entanto, generalizar esse aspecto de superproteção a todas as mães de Almodóvar, mas ao menos o zelo e a preocupação com o bem estar do filho é delas característico.
Outro aspecto que a mãe de Antônio nos traz é a cega defesa que faz ao filho assassino, servindo-lhe como álibi, independente de saber ou não da sua culpabilidade. Nisso se configura como característica materna à disponibilidade incondicional de ajudar o filho e a sua condição de referencial para ele nos momentos de necessidade, como na fala a seguir:
Antônio ¿ Tem de me ajudar.
Mãe ¿ Como? Não me conta nada.
Também relacionado com a proteção ao filho, diz respeito a, nos papéis duplos desempenhado como mãe e esposa, situar-se na condição de mediadora, zelando pela ¿normalidade¿ da situação e tentando encobrir aspectos que venham a macular a imagem da família ou do marido ¿ ¿Não quero que ninguém saiba. Principalmente meu marido¿ ¿, o que repercute na maternidade como uma peso, algo que desgasta a mãe ¿ ¿Seu pai com a política, e você. Vão acabar me matando¿. Essa exigência que a relação familiar é imposta sobre a mulher viria como um peso atribuído a ela, num deslocamento para si das responsabilidades da conduta dos filhos e dos rumos da família. Desta forma, vimos nessa mãe a configuração de mãe mantenedora da ordem e da família.
Um outro aspecto, ligado à representação de mãe, diz respeito à sua condição de figura inquestionável, imaculável, cujas ações devem ser relevadas sempre, em virtude de condição de mãe. É a fala de Tina que traz essa idéia, quando, ao conversar com Ada, sobre o abandono realizado pela sua mãe, diz: ¿Não se esqueça de que é sua mãe¿.
2. DE SALTO ALTO: A atriz e a hipocondríaca
Em De Salto Alto, temos de forma mais evidente a multiplicidade de papéis que a disputam com o papel de mãe, na mulher moderna. Becky detem em si os papéis de mãe, mulher, esposa e artista, duelando uns com os outros e levando ao desenrolar da trama. Assim como Tina desempenha a função de referencial para Ada, Becky ocupa a condição de modelo ideal seguido por sua filha, ao ponto de esta competir para ser igual a ela, inclusive no campo dos relacionamentos amorosos, como se evidencia na fala de Rebeca: ¿Passei a vida toda imitando você. Desde que nos separamos, tentei competir com você, sem êxito. Só uma vez consegui ganhar. Com Manuel.¿
Se tomássemos a perspectiva da Psicanálise ¿ influência que é, de certa forma, inquestionável na obra de Almodóvar, poderíamos evidenciar nessa relação entre mãe e filha aspectos que remetem ao Édipo e a hostilidade e rivalidade que a filha desenvolveria com a mãe por esta deter um ¿falo imaginário¿, mas esta análise não constritui o foco deste trabalho, servindo apenas para exemplificar a influência dessa teoria ¿ globalmente difundida ¿ sobre a construção das mulheres e mães almodovarianas.
Dentre os aspectos apresentados como inerentes à maternidade e a figura materna, tem-se o papel de cuidadora e educadora, expresso na fala de Alberto, o marido de Becky que é assassinado por Rebeca, para que sua mãe siga a carreira de atriz no México: ¿Você devia cuidar da casa e tratar de educar sua filha.¿ Nesta fala, de traço evidentemente machista, observamos a designação da mulher como cuidadora do lar e da educação do filho, o que vêm a dialogar com a mãe de Antônio, de A Lei do Desejo, que desempenha esta mesma função. Este papel social é, no entanto, questionado em favor da independência da mulher, que opta pela carreira profissional em detrimento dos outros papéis ¿ ¿Sou artista, não dona-de-casa¿.
Outra caraterística que se faz presente como inerente à representação de mãe, é a chantagem emocional, que ela utilizar para convencer a filha a deixá-la ir só para o México: ¿(...)se eu não for ao México, ficarei infeliz. Quer ver mamãe infeliz?¿.
A condição de abandono ao qual Rebeca foi posta levou-a a se ver como um incômodo para a mãe, sugerindo, ao menos para ela, que a maternidade pudesse representar um peso ou um custo alto para a independência e realização da mãe. ¿Desde pequena, fui um incômodo para você, mas me esforcei para ser útil porque a adorava¿. Essa perspectiva de maternidade é presente na fala da mãe de Antônio e retoma em outras mães posteriormente trabalhadas por Almodóvar em seus filmes.
A segunda mãe presente nesse filme, numa única cena, é uma mãe hipocondríaca do juiz, que se encontra a mais de 10 anos prostrada na cama. A hipocondria da mãe pode ser vista como uma acentuação do aspecto do cuidado direcionado pela mãe à saúde do filho, o que pode ser evidenciado na fala a seguir:
Mãe ¿ Que cara filho. Está doente também?
Juiz ¿ Estamos ótimos, mamãe.
Mãe ¿ Não sei, com está vida que você leva não seria surpresa se adoecesse. Fez o teste de Aids?¿
Esse cuidado exacerbado se manifesta em diversas dimensões da relação desenvolvida pelas mães de Almodóvar com seus filhos, o que dialoga com o controle que a mãe de Antônio desenvolvia em torno dele, em sua atitude superprotetora, que beiraria o patológico. Nesse sentido, não é difícil dissociar, em alguns casos, um traço doentio nas relações desenvolvidas pelos personagens, não apenas no contexto da maternidade, mas em outras formas de relação, principalmente as amorosas, fortemente marcada pela passionalidade.
Outro traço que essa mãe traz é a religiosidade (presente também em Tina) ¿ ¿Então eu vou fazer (teste de Aids). Não ando muito católica. Dê-me a tesoura. Está no altar.¿ ¿ e a chantagem emocional, neste caso, acrescida de uma exigência voltada ao filho, que lhe deveria cuidado e atenção: ¿Irá se arrepender de ter sido tão cruel com sua mãe. E esse dia logo chegará.¿
Essa ¿praga¿ que a mãe roga ao filho, alimenta a noção de mãe como ícone a ser zelado, como imagem incorruptível, que deve ser por ele mantida e devotada. Essa sacralisação da mãe é reafirmada no fim do filme, quando Becky se sacrifica em favor da liberdade da filha e purga suas dívidas como mãe ausente. Esse aspecto da mãe como mártir, que se sacrifica em nome do filho, é ilustrada na fala entre Becky e o padre, no momento final de sua morte:
Becky ¿ Padre, me acuso de haver mentido. Acabo de declarar que matei meu genro, mas não fui eu.
Padre ¿ Então por que mentiu?
Becky ¿ Para salvar minha filha.¿
(...)
Becky ¿ Sou mãe e Deus entenderá. Em vida não dei nada a ela. È justo que minha morte lhe sirva de algo.¿
Dessa forma, Almodóvar ressalta a imagem representação de mãe como mártir, que se sacrifica pelo filho, à semelhança de uma Virgem Maria, que sofre pelo filho, padecendo pelos homens, também seus filhos, para o cristianismo.
3. A FLOR DO MEU SEGREDO: A Editora, a Mãe cega e a Dançarina de flamengo.
Em A Flor do Meu Segredo, temos três mães. A primeira que se apresenta em cena é Ângela, editora de Léo ¿ Amanda Gris ¿ que questiona o novo livro desta que trata o amor materno de forma trágica e realista, ao retratar a cena de uma mãe que, para encobrir sua filha, que havia matado o pai que a tentou estuprar, esconde o corpo no frigorífico de um restaurante. Como justificativa para esse ato materno, Léo explica que, para uma mãe, ¿o importante é salvar a filha¿. Replicando a Ângela, se ela não ¿faria tudo por seu filho¿.
Essa concepção de mãe que se sacrifica pelo filho segue a linha traçada pela personagem Becky, em De Salto Alto. Esse sacrifício trágico, no entanto, é colocado como algo inerente à condição materna, inata, configurando como um destino a ser seguido pelas mães.
Para Ângela, ¿filhos só nos tiram a vida¿, corroborando para uma representação de maternidade que representa um peso para a vida da mãe, assim como é expressado por Rebeca, ao se considerar um incomodo para Becky.
A segunda mãe apresentada é a própria mãe de Léo, uma velha aldeã, viúva e cega, que mora com a outra filha, com quem mantém uma relação conflituosa, o que a faz qualificar a própria filha como uma cruz, um martírio: ¿Ai Leocárdia, que cruz carrego!¿. A mãe de Léo, assim como a mãe do Juiz de De Salto Alto, incorpora um traço da loucura que a aproxima também à condição de sábia, que traz o tempo todo lições incorporadas pela experiências de vida. Para a irmã de Léo, a mãe está louca e suas falas são tidas como devaneios de uma ¿velha esclerosada¿, como quando ela fala, forma jocosa: ¿Ela deu pra filosofar agora¿.
A mãe de Léo, no entanto, representa bem a imagem de uma mãe tradicional, no sentido mesmo que constitui a imagem da mãe no seio de uma família patriarcal, rural, típica da velha Espanha franquista. Ela representa os valores tradicionais, as raízes para as quais Léo retorna, buscando ressignificar sua vida após o abandono do marido e sua traição com a melhor amiga. Em uma de suas falas, a mãe de Léo caracteriza bem essa sabedoria popular, tradicional, que representa.
Mãe ¿ Estou como uma vaca sem cincerro. Mas, na minha idade, é mais natural. Por isso quero morar na aldeia. Quando nós mulheres perdemos o marido porque morreu ou foi embora com outra, dá no mesmo, devemos voltar ao lugar onde nascemos. Visitar a capela da aldeia, conversar com as vizinhas, rezar para a novena com elas, mesmo que não acredite. Senão, ficamos perdidas por aí como vacas sem cincerro.
A mãe representa, neste contexto, o retorno às raízes, à memória da família, o ¿lugar de onde nascemos¿, o ponto de partida em que se constituí o sujeito, sua primeira relação com o mundo e seus significados. A mãe que fala não se destitui de seus diversos papéis de mãe, mulher e esposa, mas integra-os de forma totalizante, não fragmentada. Essa mesma mãe traz os valores religiosos tradicionais, o significado de família, um sentido de solidariedade que pouco se mantém no contexto da sociedade pós-moderna. Essa representação de mãe constitui uma representação que progressivamente vai se desfazendo, à medida em que novos valores vão sendo incorporados na cultura, nas relações sociais, com as transformações das dinâmicas econômicas.
Em semelhança às outras mães já mencionadas, esta traz também o caráter de mãe mantenedora, que lamenta por sua filha não estar se alimentando e se preocupa com ela ¿ ¿Não tocou na sopa. O que foi Léo¿ ¿, e traz também a compreensão da maternidade como um processo difícil e árduo ¿ ¿Filha, foi tão difícil criar você¿.
A última mãe apresentada neste filme é a empregada de Léo, que, juntamente com seu filho, dança flamengo. Ela aparece, na fala de seu filho, como a representante dos valores morais de honestidade e gratidão. Ela serve apenas para exemplificar a influência materna na formação moral do filho, ao repreender o seu, Antônio, por ter roubado jóias e outros objetos da casa de Léo ¿ além dos rascunhos de seu livro. Quando questionado por Léo, quanto a sua participação nos roubos do filho, este diz: ¿Minha mãe é totalmente contra. Quando descobriu ficou uma fera (...) Um dia antes me pegou roubando. Não queria nem dançar¿.
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4. CARNE TRÊMULA: A prostituta
Em Carne Trêmula, aparece apenas uma mãe, a mãe de Victor, que se apresenta no início de filme, como uma mãe solteira que o pari no ônibus, durante uma noite de Natal de uma Madrid deserta e em plena ditadura franquista. Anos depois, após o filho ser preso, ela surge como uma memória vaga, através de cartas trocadas com ele na cadeia, marcada pelo câncer e pela depreciação moral, por ser prostituta.
Novamente, retornam aspectos de mãe que já foram discutidas em outras personagens, como os que vinculam à mãe o caráter de mantenedora e protetora, que zela e faz sacrifícios pelo filho, lhe deixando uma herança ¿ ¿Deixo a casa de La Ventilla, senão derrubam antes e algumas economias¿ ¿, dividindo com ele cada experiência de sua vida ¿ ¿O que tive compartilhei com você¿.
A prostituição serve como elemento humanizador da mãe santa e idealizada, ao coloca-la na condição humana, passível de falhas, mundana ¿ ¿E também estou aficionado pela Bíblia. Agora estou enrolado com o Gênesis. Você acha que fiquei doido, não é?¿, e marcada pelas experiências da vida, mas que nem por isso deixa de cuidar do filho.
Embora não possa representar um referencial ideal para o filho, é ainda para ele, um ponto no qual ele se suporta, buscando manter-se integro na cadeia. Para ele, embora a mãe seja uma prostituta, torna-se fundamental manter uma imagem honrada diante dela, fazendo-lhe valer todos os esforços por ela sofridos para mantê-lo.
Mãe, você gostará de saber que não me envolvi com drogas nem me contagiei com aids.Estudo muito. Passo o dia dando aulas. De pedagogia, de farmácia, artesanato, até de teologia. Com as aulas dá pra redimir a pena e aprender mais.
Ao mesmo tempo, ele considera injusto todo o sacrifício que ela faz por ele, colocando-se como indigno:
Hoje de manhã, fui ao banco para cobrar a herança. 150 mil pesetas. Quando vinha para cá, tentava calcular quantas trepadas você deve ter dado para economizar 150 mil pesetas. Pelo menos mil trepadas! E eu consigo a mesma quantia sem trepar nem uma vez, Não é justo! O que você sofreu nesta vida não é justo, não e justo.
Um outro aspecto interessante de ser notado é que, na relação estabelecida entre mãe e filho, um dos dois se mantém como identidade enigmática, como um estranho conhecido. Em A Lei do Desejo, a mãe de Antônio alega, numa certa passagem, que ele ¿tem agido estranho¿ e que ele ¿às vezes me assusta¿, em parte decorrente das omissões por ele realizada, quanto a ter cometido o crime e quanto à sexualidade ¿ que ainda hoje se constitui um tema tabu nas relações familiares. Já em Carne Trêmula, é a mãe que ocupa o lugar de desconhecido na relação, o que se evidencia na resposta de Victor, quando interrogado por Clara, sobre se ele conhecia a mulher cuja sepultura ele depositava flores: ¿Não (conhecia) muito. Era minha mãe.¿
5. TUDO SOBRE MINHA MÃE: A Super-mãe, a Mãe Lorquiana e duas Rosas com espinhos.
Tudo sobre minha mãe, o último filme trabalhado neste artigo, compreende 4 mães e é o que melhor apresenta a diversidade de traços maternos, contextos e elementos constituintes da maternidade, sob um prisma atual, abarcando questões polêmicas como a gravidez, o aborto, a Aids, doações de órgãos, etc.
A primeira mãe apresentada, e, de certa forma, a figura central do filme, é Manuela, uma enfermeira, mãe solteira, que cuida sozinha de seu filho, então com 17 anos.
Logo na primeira cena do filme, ela aparece ocupando o lugar de mãe mantenedora, que prepara o alimento do filho e se preocupa com sua alimentação ¿ ¿Vamos, coma, precisa ganhar uns quilinhos. Caso precise vender o corpo para me manter¿. Nesta fala de Manuela, além do traço de mãe vinculado ao provimento do filho, temos um aspecto da maternidade que já foi discutida em De Salto Alto, na cena entre a mãe hipocondríaca e o filho juiz, na qual se evidencia uma relação de dependência e uma certa exigência no sentido de que assim como a mãe um dia cuidou do filho, também o filho deverá sustentar a mãe, na velhice. Embora esse ponto se apresente de forma sutil, é um interessante, posto que levanta a discussão acerca do vínculo mãe-filho, que envolveria inclusive uma forma de acordo de dívida e dependência, nas relação maternal. Mas não cabe a nós aprofundar nesse ponto.
Além do caráter de mantenedora, Manuela caracteriza a mãe atenciosa, que sabe os gostos do filho, como quando dá ao filho, de presente de aniversário, um livro de Capote.
Manuela legitima a representação de mãe que se sacrifica pelo filho, trazida pela fala de Léo, em A Flor do meu Segredo, quando afirma que ¿Já fui capaz de fazer qualquer coisa por você¿, podendo até se prostituir, se fosse necessário. Neste ponto vemos um paralelo com a personagem da mãe de Victor, de Carne Trêmula, que efetivamente se prostituiu para mantê-lo.
Outro aspecto que é importante notar é a influência exercida pela mãe sobre o filho. No caso de Manuela, o próprio filho, Esteban, descreve essa interferência, ao descrever em si mesmo, uma forma diferente de se comportar, associada à convivência com a mãe: ¿Nós, garotos que vivemos sozinhos com nossa mãe temos uma cara especial, mais séria que o normal, como um intelectual ou escritor.¿
Este ponto trazido na fala de Esteban poderia se associar, também, à idéia da mãe enquanto referencial no qual o filho se espelharia, assimilaria aspectos de personalidade, comportamentos e valores, ao que retomamos à mãe de Antônio, empregada de Léo, de A Flor do Meu Segredo, quanto à questão moral.
A partir de agora, torna-se quase impossível deixar de estabelecer relações comparativas entre os filmes, tendo em vista que a multiplicidade de aspectos acerca da representação de mãe, trabalhada nos filmes de Almodóvar, convergem e ganham destaque em Tudo sobre minha mãe.
Através de Manuela, chegamos à dimensão trágica e dramática da mãe, não apenas que se sacrifica pelo filho, mas que sofre por sua perda. Quando Esteban morre atropelado e tem seu coração doado, presenciamos a desespero da mãe que perde o filho, como se perdesse parte de si mesma. Ela viaja para La Coruã, cidade em que se realizou o transplante, e, contra todos os valores éticos, vai ¿atrás do coração de meu filho¿. Utilizando-se da intertextualidade, numa cena metalingüística, ao se interpretar, já no fim do filme, a Mãe da peça ¿Bodas de Sangue¿ de Frederico Garcia Lorca, Almodóvar sintetiza numa cena dramática, o sofrimento da mãe, diante da perda do filho:
Tem muita gente que pensa que os filhos são coisa de um dia. Mas demora muito, muito. Por isso é tão terrível ver o sangue de um filho derramado no chão. Uma fonte que corre durante um minuto e que a nós custa anos. Quando encontrei o meu filho estava jogado no meio da rua. Eu molhei as mãos de sangue e as lambi com a língua. Porque era meu sangue. Os animais lambem, não é mesmo? Eu não tenho nojo de meu filho. Você não sabe o que é isso. Em um ostentáculo de cristal e topázios eu colocaria a terra empapada com o seu sangue.
Nesta fala da Mãe lorquiana presenciamos a representação quase animalizada da mãe, a ¿mãe loba¿, instintiva, doída, desesperada no cuidado de sua cria, cujo sangue é um desdobramento de si mesma, um prolongamento umbilical jamais rompido. O filho como complemento da mãe, como o seu ¿falo¿, se pensarmos sob a perspectiva psicanalítica, cuja perda representa também uma perda de referenciais, uma falta impossível de ser significada e que mobiliza um retorno às raízes, ao passado, assim como fez Léo, em A Flor do Meu Segredo, juntamente com sua mãe cega.
Nesse percurso, Manuela se defronta com mais duas mães: Rosa, uma freira, que cuida de prostitutas redimidas, e sua mãe, Rose, falsificadora de quadros de Chagal, que cuida do marido com Alzheimer.
A relação entre Rose e Rosa é marcada por grande hostilidade recíproca ¿ os ¿espinhos¿ da relação mãe-filha ¿, numa dinâmica ambígua, em que ficam indefinidos os sentimentos envolvidos.
Inicialmente, a mãe de Rosa aparece como uma mulher rígida, moralista ¿ que não admite contratar Manuela, por creditar tratar-se de uma prostituta ¿, e autoritária, que utiliza-se de chantagem para manter a filha sob seu controle ¿ ¿Vou lhe propor um acordo. (...) Eu darei uma oportunidade a essa mulher se você não for para El Salvador.¿
Ao mesmo tempo, esta mesma mãe, se preocupa com a união da família, exigindo maior vinculação filha com eles ¿ ¿Qualquer prostituta ou salvadorenho é mais importante que seus pais¿.
Ao descobrir-se grávida, Rosa, que era freira, procura Manuela, buscando auxílio. Em um de seus diálogos, Manuela explicita a representação de mãe como cuidadora, ao dizer: ¿Tem que contar para sua mãe, Rosa. Precisa de alguém para cuidar de você.¿ Ao mesmo tempo reivindica a condição de inquestionabilidade da figura mãe, ao pontuar que, mesmo não gostando da mãe, ela tinha uma e deveria ser aceita como era. (¿Você tem mãe, mesmo que não goste dela. Não se escolhe os pais! São quem são!¿)
Retornando à figura da mãe e à relação mãe-filha, retomamos a discussão já levantada na análise de Carne Tremula, sobre a condição de desconhecido que um, ou ambos os membros da relação, acabam se enquadrando. No caso em questão, é a filha que para a mãe é desconhecida, o que presenciamos quando a mãe de Rosa lamenta à filha que nunca sabia nada dela, senão por intermédio de outros e de que não sabia como lidar com ela, com a situação de ter a filha grávida e por tanto tempo escondida. Ao mesmo tempo em que não sabe o que fazer, a mãe de Manuela se oferece a cobrir qualquer despesa, pedindo que seja informada de qualquer novidade, o que a coloca como mantenedora e zelosa com a filha.
Ao mesmo tempo em que cumpri com esse papel de maternagem, cuidando das necessidades da filha, observa-se, também por parte dessa mãe uma certa rejeição à própria filha, desde o nascimento, ao comentar que ¿(Rosa) Desde que nasceu foi como uma extraterrestre¿ e ao expressar o alívio que não deveria ser ¿parir sem sentir dor¿.
A experiência do parto, diferentemente da mãe de Rosa, que acentua no aspecto da dor, delineando sua própria experiência de parto e maternidade ¿ como sacrifício, caminho penoso, doloroso ¿ é significada por Manuela como ¿o grande dia¿ em que o filho vai nascer. Essas diferentes perspectivas sobre o parto também demonstram as diferentes formas de se significar e representar a maternidade.
Nesse dilema, se configura duas representações aparentemente polares acerca da maternidade e de figura de mãe, em que Manuela sintetiza a ¿super-mãe¿, zelosa, afetuosa, cuidadora, mantenedora e que se sacrifica por amor ao filho, em oposição à figura rígida e autoritária de uma mãe pouco afetiva, voltada para o marido (figura frágil e demente), preconceituosa ¿ que rejeita o neto por ele ser portador dos anticorpos do HIV ¿ e que se preocupa com as aparências.
Cair numa dicotomia maniqueísta, no entanto, seria desconsiderar as singularidades da experiência de mãe e os diversos elementos periféricos que constituem a representação social de mãe.
CONCLUSÃO
Buscar uma representação social de mãe e de maternidade em filmes de Almodóvar é no mínimo desorientador. As suas personagens, por serem tão diversas e ambíguas, não permitem a cristalização de um conceito ou idéia acerca o que seria mãe. O que pudemos perceber como elementos centrais de uma representação de mãe é sua qualidade de mantenedora, cuidadora e referencial para o filho. As mães são tratadas, geralmente como personagens fortes, dominadoras e que de alguma forma controlam ou interferem na vida dos filhos.
Como elementos periféricos temos as variáveis formas de se estabelecer os vínculos maternos, seja de forma mais estreita e zelosa, seja de forma mais distanciada, menos apegada aos filhos, dirigindo ou dividindo sua atenção com outros papéis sociais, como os de esposa, mulher, trabalhadora.
O próprio conceito e representação de maternidade se torna interveniente como aspecto periférico constitutivo da mãe. Seja concebida como uma bênção, seja como uma cruz, um fardo ou um sacrifício que envolve dor, a maternidade se manifesta como uma relação que transcende o aspecto biológico, filogenético, e adentra na experiência e nas formas diversas de significar o contato mãe-filho.
Refletir sobre a maternidade no contexto dos filmes de Almodóvar é abrir-se para a perspectiva de que não existem papéis cristalizados, de que a maternidade é um fenômeno complexo, que dialoga com o contexto de múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher na modernidade. Almodóvar lança a questão sob a perspectiva da diversidade, das transformações que mantém ainda aspectos de velhas e novas visões de mundo, em que ainda se encontra a representação da mãe sabia, suporte, sólida e inteira, ao mesmo tempo em que também nos deparamos com mães inconstantes, em crise, fragmentadas nos múltiplos papéis que tem de desempenhar.
Desta forma, só podemos concluir que as mães, sejam de Almodóvar, sejam as de carne e osso ¿ o que não significa dizer que as dele não são dotadas de realidade ¿ continuam um mistério que só pode ser vislumbrado em suas muitas manifestações através da arte, do cinema, ou da experiência efetiva do contato com essas ¿criaturas estranhas¿ que amam loucamente, cada uma a seu modo.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:12 AM Comments:
Segunda-feira, Julho 10, 2006
POEMA DE AMOR-MORDIDA
vou arrebentar minhas artéria num grito desenfreado
que devora minhas entranhas num beijo sem boca e sal
já não te quero desejo, querendo febre delírio carne
te quero sim como nunca, perdendo minhas carnes mortas
sou verme ou simplesmente inseto, defecando amores inúteis
seguinda o cheio assustado de um corpo pêlos e gozo, canela em pau
e sou meu quase precipício, amando um amor sem princípio, meio ou fim
e devorando ardores, sou espada de ferro retorcido e lágima azul
se ser doesse mais que amar, preferia existir eternidade inteira
mas nada me basta nesse canto sem toque, sem mãos enlaçadas
a não ser meu mergulho no vazio dos livros teoremas provérbios
derramando meus dias e meus olhos na insensibilidade estéril...
das noites brancas... silêncio sem sinos ou garfanhotos.
(L. F. Calaça | 10/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:03 PM Comments:
QUEM SOU EU? ou O LUAL
eu sou minha noite fogueira brasa espanto
pranto congelado no meio do corrimão pirâmide
de pedaços milimétricos facas serras serragem
de uma escultura morta de madeira velha apodrescida
e se me escondo do mundo, e se sufoco no escuro
já guardo notas milhares de cartas raspas de pó
sou meu silêncio profundo, acorrentando o estranho
desejo de ser coisa alguma metamorfose de sons
e acabo repartindo idéias, amores e clarividências
mentindo pra mim meus soures, sono dormência
de um estado infinito de coisas petrificadas, tudo:
almas, amores, sentidos e sexo. atrás das dunas.
(L. F. Calaça | 10/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:54 PM Comments:
Sexta-feira, Julho 07, 2006
(IN)SANIDADE
EU ENLOUQUEÇO
Tu (também) enlouqueces
ELA enlouquece
NÓS ENLOUQUECEMOS
Vós enlouqueceis!!!!
ELES (me) ENLOUQUECEM
...
(L. F. Calaça | 07/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:50 PM Comments:
Quinta-feira, Julho 06, 2006
AVALIAÇÃO CRÍTICA DE "DINÂMICA DE GRUPO":
Aspectos teóricos e práticos, experiência de grupo
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Este trabalho que me proponho a fazer tem como objetivo levantar pontos de reflexão acerca da dinâmica de grupo, envolvendo aspectos teóricos e práticos, além de discorrer um pouco sobre sua importância enquanto disciplina a ser trabalhada no curso de Psicologia. Tentarei me ater muito mais na experiência de grupo, da turma desse semestre, no transcorrer do curso da disciplina "Dinâmica de Grupo", discorrendo sobre pontos que consideram relevantes, de modo que não pretendo me prendendo a uma mera síntese dos teóricos, visto que não considero o ponto fundamental.
Ao iniciar a disciplina, percebi uma tendência quase generalizada a se desmerecer a disciplina "Dinâmica de Grupo" por associar-la apenas uma série de técnicas e práticas de vivência, reproduzidas sistemeticamente em cursos de aprofundamento pessoal ou em seleção de profissionais na área de organizacional. O contato com os diversos teóricos, desde Kurt Lewin, considerado o seu fundador, passando por Moreno, Rogers, Pichon Riviere, até o contexto brasileiro, com Paulo Freire, demonstra não apenas a heterogeneidade dos estudos acerca dos grupos, englobando várias perspectivas teóricas e áreas de atuação do profissional de psicologia.
OS TEÓRICOS
Uma experiência particularmente importante foi adentrar diretamente na obra de Kurt Lewin, através da leitura de seu artigo voltado para o trabalho de pesquisa em Psicologia Social, sob a perspectiva da pesquisa-ação. Para quem apenas havia ouvido citar esse autor no contexto da Psicologia da Gestalt, como o teórico a trabalhar com a perspectiva da Teoria Dinâmica da Personalidade, que incorpora aspectos da física à psicologia, compreender um pouco de sua obra, nos últimos anos de seus trabalhos, voltados diretamente para a questão dos grupos, no mínimo possibilitou entrar em contato com um outro viés do teórico e seus pensamentos.
Eu, particularmente, tenho uma simpatia muito grande pela Gestalt e pela Gestalt-Terapia, e considero de grande importância a compreensão dos processos grupais, nos vários contextos de interação do indivíduo, tendo em vista que somos seres constituídos em sociedade.Tanto para a teoria, quanto para a abordagem clínica da Gestalt, o trabalho de Kurt Lewin tem grande importância, principalmente por seu esforço metodológico de sempre voltar a suas idéias, avaliar sua teoria, concebendo a ciência como um processo dinâmico e de constante transformação.
Diante dos outros autores, colaboradores indiretos e, de certa forma, independentes entre si, tenho em vista a diversidade que a dinâmica de grupo incorpora enquanto disciplina e possibilidade de atuação. Em Pichon Riviere e Paulo Freire percebo muito mais uma preocupação política com a questão de grupo, ao envolverem aspectos como o contexto cultural em que se constitui o sujeito, suas formas de interação e verdadeiro processo de construção do indivíduo em suas interações. Em Paulo Freire, além do viés ideológico, temos a sua relevância para o contexto da educação, da Pedagogia, tomando como imprescindível a compreensão do contexto social, da realidade do sujeito, a fim de incluí-lo no processo aprendizado. Nesse sentido considero fundamental a importância da Dinâmica de Grupo enquanto processo de descoberta e engajamento do sujeito dentro de seu contexto vivencial e de interações.
Em Rogers, o autor focado por minha equipe e por mim, nos seminário interativos, entrei em contato tanto com a questão da educação - tendo em vista seu trabalho voltado para o acompanhamento de "crianças problema", como pelo serviço social - quanto com a perspectiva psicoterapêutica. Sob uma perspectiva humanista e fenomenológica, Rogers concebe, em sua teoria centrada na pessoa, o papel do sujeito como detentor de sua própria verdade, aquele que apresenta o conhecimento e os recursos para o auto-conhecimento e a auto-realização. Ao voltar a terapia para o sujeito, o indivíduo, no entanto, ele não exclui o aspecto do contexto, pelo contrário, compreende o processo grupal como fundamental para a emergência de conteúdos significativos e vivenciais, imprescindíveis para esse movimento em direção ao "eu" e à auto-realização.
Em Moreno, vemos acentuada a perspectiva psicoterápica, sendo ele considerado o criador da Psicoterapia de Grupo, através dos jogos teatrais do Psicodrama e o Teatro da Espontaneidade. Moreno compreende a relação de grupo sob o viés do teatro, em que cada sujeito desempenharia diversos papéis sociais, encarnando personagens, e interagindo espontaneamente no jogo da vida. Um ponto que creio ter ficado em aberto, no entanto, foi uma melhor compreensão do que seria o Sociodrama e suas possibilidades de atuação nos mais diversos contextos.
AS PRÁTICAS
Tendo em vista essa breve reflexão sobre os autores, muito mais com a intenção de ilustrar a diversidade de olhares e campos de intercâmbio com a dinâmica de grupo, volto-me para as práticas e para a própria experiência da turma.
Em parte justificada pela inicial relutância diante da própria disciplina de "Dinâmica de Grupo", creio que deixou-se de se aproveitar as possibilidades que as práticas possibilitariam. Ao se desmerecer as técnicas de dinâmica de grupo, por tratar-se quase que de um "clichê" - assim como os psicotestes ou testes de orientação vocacional - da Psicologia enquanto atuação profissional, na área organizacional, deixou-se de experimentar possibilidades de por em prática, em nós mesmos, o conhecimento estudado. Senti que a turma evitou se envolver nas práticas diversas de forma mais implicada, principalmente nas práticas relacionadas a Rogers e Moreno, por envolverem aspectos da individualidade de cada um. Ponho-me a refletir um pouco sobre a questão e, embora concorde com a liberdade de não aceitar se expor para o grupo, mostrar suas fragilidades ou questões pessoais, creio ser importante para um estudante de psicologia e futuro psicólogo se envolver diretamente naquilo que se propõe a fazer profissionalmente, seja na área clínica, organizacional ou pesquisa, tendo em vista que também estamos implicados no processo.
Dessa forma, considero que a parte prática da dinâmica de grupo foi um pouco negligenciada pela própria turma, que, a meu ver, não quis se expor, se envolver diretamente na situação de grupo. Em parte eu considero como justificativa o tipo de formação que estamos nos acostumando a nos submeter, socialmente, no caminho de um individualismo, numa imersão na vivência pessoal, do estudo individual e não abertura para a troca com o outro. Essa questão, vejo eu, é mais um motivo para se manter a Dinâmica de Grupo enquanto fundamental para a formação do estudante de psicologia, no sentido de desenvolver uma visão crítica da nossa própria realidade e como alternativa de mudança, no sentido de uma formação para aa vida em grupo, para a interação e implicação nos diversos contextos.
NECESSIDADE DE CONTEXTUALIZAR A DINÂMICA DE GRUPO
Para finalizar essa breve reflexão, tendo levantado a questão da importância da disciplina na formação do estudante de psicologia, faço uma consideração, a título de sugestão, para maior enriquecimento da disciplina, que se busque trabalhar não apenas as diversas teorias e práticas a elas associadas, mas também que seja lançado um gancho com a realidade do psicólogo no seu contexto profissional. Para estudantes no início do curso - 4º semestre, em sua maioria - o contato com uma disciplina de Psicologia é, muitas vezes, abstrata demais, em parte por se dar de forma descontextualizada.
Creio que seria interessante que nas aulas fosse possível entrar em contato com profissionais que, em sua experiência diária, trabalhassem diretamente com a questão grupal e com aspectos da dinâmica de grupo. A presença, no início do curso, de Liliane Barbedo, foi interessante, por ela trazer, certa ocasião, um relato de técnica de grupo no contexto hospitalar, da época em que ela trabalhava em uma instituição para doentes mentais. No caso, a experiência que ela trouxe foi no âmbito das relações da equipe de limpeza do hospital, buscando compreender a pouca produtividade do grupo em questão na realização de tarefas.
Um sistema de apresentações de profissionais de diversos contextos do psicólogo, ou de outras profissões, inclusive, se pensarmos na questão da tendência à atuação em equipes multidisciplinares e ao fato de a dinâmica de grupo não ser exclusiva do psicólogo, mas envolver também profissionais de serviço social, administração, educadores e outros tantos que trabalham no campo das relações humanas.
Tento concluir aqui estas reflexões. Como salientei no início, não busquei traçar um panorama teórico da dinâmica de grupo, de modo que não acrescento um rol de referências bibliográficas, embora tenha fundamentado parte dessa análise nos textos lidos durante a disciplina e nos seminários interativos. Espero ter conseguido expor de forma objetiva minhas opiniões quanto a considerar a Dinâmica de Grupo como uma disciplina importante para a formação do estudante de psicologia e possível atuação em diversos contextos. Lamento que seja insuficiente para adentrarmos num estudo mais aprofundado de cada teórico, nem seja possível conhecer um maior número de técnicas que possibilitem uma apreensão vivencial das relações de grupo de forma mais ilustrativa. Percebo a atual dificuldade de se aceitar aspectos diversos da dinâmica de grupo, muito mais por uma forma condicionada do estudante - para não dizer da sociedade - voltado para uma vivencia mais individualista da própria experiência do conhecimento. Considero essa postura um entrave para o futuro profissional de psicologia, que tende a sair da universidade sem ter um contato prático-vivencial de grupos, insensível, talvez, para a relação com o outro, por não se sentir também implicado nos diversos papéis que as relações de grupo estabelecem nos mais diversos contextos.
UFBA
Salvador-BA
2006.1
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 6:27 PM Comments:
Terça-feira, Julho 04, 2006
DESEJOS MÍNIMOS
eu luto por rios inteiros de sangue
e litros de oxigênio povoando meus pulmões
sou o excesso, não me contento com a sobrevida,
mas com a vida intensa, mesmo em sonho
não consigo ser menos que o derramamento completo,
minha loucura, minha insensatez é a minha forma imperfeita
de viver os sentimentos, com minhas víceras poéticas
é isso! quero poder sonhar com algo além da sobrevida.
algo que me afogue e me faça viver explodindo.
esta é minha loucura insana de viver.
(L. F. Calaça | 03/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:12 AM Comments:
Domingo, Julho 02, 2006
Saturne dévorant ses enfants, Francisco de Goya
CANIBALISMO
É isso. a idéia é ser indiferente, quase ordodoxamente psicanalítico. Sou um ouvido, e uma boca muda, atada, desdentada. Mas não importa a ausência de dentes ou a dor de sua perda, das cáries corroendo os nervos. Sou apenas uma parede projetada de frustrações e dúvidas suas, minhas. Minhas? Talvez. Fiquei duvidando de minha própria condição de humano e desejante diante de sua falta completa de vida. Não sou um objeto inerte, um terapeuta-secretária-eletrônica. Sequer sou terapeuta. Minha condição não me ajuda em nada, pelo contrário, só faz me atormentar os miolos, desejando que todos se fodam. Mas têm que fuder mesmo, pois relaxa e assim não se precisa de tantos anaugésicos, opióides e ansiolíticos. Quero minha boca aberta e falante, gritando meu desejo hipérbole, sugando seivas-salivas, mordendo frutos espinhosos e gozando horrores. Quero ser um corpo encarnado e em chamas pirotécnicas, piromaníacas, incinerando o tempo mata virgem. Quero ser um corpo desvirginando e desvirginado, sensorialidade assombrada, delirando num estado de transe e torpor. Sou minha carne que vive ainda e é livre para amar outra carne-pele-pêlos. Já não te quero como sombra, como desejo e ideal amorfo. Desejo minha existência profana e material, neolítico, arcáico e primitivo, bebendo sangue vervendo ainda das veias e artérias dilaceradas. E meu espíriro é fogueira alada, daquelas que queimam e causam dores agudas, descascando falsas coberturas quitinosas e expondo o suco deslizante das minhas entranhas amálgamas. Quero minha basfemia como única certeza de meu pecado, o pecado de sentir um dia falta de tato, tentando transgredir o espaço limite de meus dedos, numa heresia transcedental.
(L. F. Calaça | 02/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:04 PM Comments:
Sábado, Julho 01, 2006
ILUSÃO ZIGÓTICA
Meu corpo feto gigante
atado à membrana embrionária
debato meus gritos alucinógenos
debulhando grãos de pólen.
Pulverizando as sentinelas
dadas as migalhas aos açoites
misturo meus sucos ao gotejo
um a um de bile e esperma.
Cada vez mais amordaçado
vou gritando o desejo inaudito
dos poros, nervos e unhas cravadas
nas pilhas de ossos, muralhas infinitas.
E meu poema, meu gemido afônico
é estado de inutilidade sinestésica
de um corpo que se desfaz aos poucos
devorando-se em estrondo-mortalha.
(L. F. Calaça | 01/07/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:46 PM Comments: